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Via Insurgente, encontrei um artigo que fala acerca do "mito" de que a dívida pública é apenas dívida que devemos a nós próprios. Mas este texto acrescenta mas confusão do que propriamente esclarecimento ao stock de conhecimento útil que circula por aí.

 

Já falei sobre isto na Douta Ignorância. Para quem não quiser seguir o link, aqui fica um resumo do argumento. A dívida da Joana é um passivo da Joana e um activo do Manel, que lhe emprestou. Se a Joana contrair demasiada dívida, a Joana está a pôr-se nas mãos do Manel, a quem terá de pagar o empréstimo (com juros) mais tarde. A benevolência do Manel é, assim, um presente envenenado: cada euro a mais que a Joana consumir alavancado no empréstimo, significa um euro a menos no futuro para pagar esse mesmo empréstimo.

 

A lógica da dívida pública é completamente diferente porque, ao contrário do que acontece no exemplo anterior, credor e devedor são a mesma pessoa. O Estado que aumenta o seu passivo para fazer estradas não está apenas a endividar os contribuintes: está igualmente a ceder-lhes o direito, enquanto 'accionistas' do Estado, a receber o capital e os juros dessa dívida. Apesar de os contribuintes não serem, obviamente, os mesmos, o país, como um todo, não está endividado. O artigo da American não nega esta trivialidade. O problema vem depois:

 

However, this sets the political system up for conflict and strife in year two, when the burden of paying the debt has to be apportioned. As we have seen, it could be divided any number of ways. However, consider this: Lois is expecting three bushels of corn, based on what she produces and her expectation of having her loan repaid. Meanwhile, Sammy is expecting two bushels of corn, based on what he produces. There are only four bushels of corn available, and there will be a political battle over who gets disappointed the most (...) in fact, in year two, the government will not want to resolve the issue of distributing the cost of the debt. Paying off the debt requires incurring political cost. The easiest thing to do is instead to roll over the debt. Moreover, Sammy is used to eating three bushels of corn, and the government does not want to have him face austerity. So it goes to Larry and Lena Lender for a loan of two bushels of corn. The government pays back Lois with one bushel and gives the other bushel to Sammy. It goes into year three with a debt of two bushels of corn. As you can see, the political incentive for the government is to go deeper and deeper in debt (...) As the debt spirals out of control, governments of failing states resort to what economists call inflationary finance. They cannot find enough Lenders to continue to pay off the Spenders. So they borrow from their central bank. The central bank in turn can only expand its lending by creating more money. If it fails to fight inflation, it risks hyperinflation.

 

Não sei se estão a perceber. O problema da dívida pública é que a dívida pública cria sempre mais dívida pública, que por sua vez cria inflação e, por consequência, hiperinflação. Aliás,  o registo histórico confirma isso. Todos os países que tiveram, em algum ponto da sua história, dívida pública, acabaram numa espécie de Zimbabué. A dívida pública é o Armagedão que leva tudo no seu caminho. Sobretudo a inteligência.

 

Agora, com cabeça, tronco e membros. A dívida pública tem problemas. O problema referido no texto, de disputa política, é real, sobretudo a partir do momento em que começa a crescer sem perspectivas de estabilização. Mas este problema não tem nada a ver com dívida pública: aconteceria exactamente o mesmo problema se estivessemos a falar de dívida privada, com um sector da economia a deter créditos sobre outro sector. 

 

Aquilo que se vê em Espanha já é uma manifestação dessa luta política. A situação é quase inevitável a partir do momento em que o fardo da dívida se acumula de um lado dos pratos da balança. Não é preciso haver Estado no meio para que haja disputas em relação a dívidas, como qualquer pessoa com olhos na cara (e sem os óculos ideológicos postos) consegue facilmente perceber.

 

 

 

 

   

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publicado às 13:16


8 comentários

De J. Saro a 30.11.2012 às 10:08

Percebo a ideia, mas indo à semântica da coisa. Não pode existir um problema moral com a dívida pública e com essa coisa de "a dívida pública é dívida que devemos a nós próprios". Dito assim.

Porque isso é assumir que o Estado somos todos nós. Ou seja, o Estado endivida-se no seu próprio país, mas a forma como se paga pode ser injusta. O Estado endivida-se e eu tenho de pagar dívida que posso não ter comprado.

Este é um outro lado do problema da dívida pública, certo? Ou algo falha neste raciocínio?

É que se estiver correcto, essa coisa de devermos-nos a nós próprios é um bocado enganadora para quem lê.

De PR a 30.11.2012 às 11:42

J.Saro,

Claro. A dívida pública levanta três tipos de problemas. Problemas de incentivos, porque podem obrigar a lançar impostos distorcionários. Problemas macroeconómicos, porque podem criar uma bolha que, como qualquer outra bolha, reduz a procura quando rebentar. E problemas redistributivos, porque a despesa que ela financiou só por mero acaso beneficia os contribuintes que terão de pagar a dívida.

Mas a dívida pública não é o tipo de dívida que nos deixa "nas mãos dos credores", como a maior parte das pessoas pensa. Essas mãos são nossas.

De J. Saro a 30.11.2012 às 13:21

Sim, percebi isso com o texto. E é por estes textos que acho que a PR é das(os) melhores bloguers que vejo por aí. Vénia pelos posts já desde A Douta Ignorância.

Já agora, senão for abuso, estava a rever na diagonal um documentário que passou na SICn há algum tempo - "Overdose: The Next Financial Crisis". O documentário está bem sustentado ou tem várias lacunas (isto relativo ao possível no formato, claro)?

Pergunto isto por duas razões:

1) A linha actual europeia não segue de grosso modo a ideia do documentário que não podemos alimentar uma nova bolha? Que as injecções de dinheiro por parte do Estado são como "álcool para um alcoólico"?

2) Como é que o New Deal, Plano Marshall e afins foram bons planos económicos de injecção financeira? Simplesmente, porque foram criteriosos ou em circunstâncias diferentes (Plano Marshall penso que seja pouco comparável por esta razão).

De PR a 02.12.2012 às 15:19

J., não vi esse (nem conheço) esse documentário. Mas a imagem do álcool e do alcoólico é boa.

Uma imagem ainda melhor é a de droga e um viciado. Apesar de todos concordarmos que os estupefacientes são maus para a saúde e que devem ser reduzidos, a melhor estratégia pode não ser eliminar o seu consumo de um dia para o outro. Isto porque em ambos os casos, uma terapia de choque deste tipo tem efeitos de feedback negativos muito fortes, que contrariam o objectivo inicial da política.

No caso de um viciado, acabar com as drogas de um dia para o outro gera síndromas de privação e causa uma fadiga mental de tal forma aguda que pode erodir a força de vontade necessária para continuar com essa 'política' no período seguinte. No caso da consolidação, a austeridade aguda contrai a economia até ao ponto em que a queda das receitas praticamente compensa as medidas implementadas, e gera fadiga no sistema democrático, favorecendo a eleição de grupos extremistas que propõem uma alternativa diferente.

Quanto ao New Deal, não conheço o assunto em detalhe. Uma possibilidade é que, em situação de depressão económica, e com a política monetária incapacitada, qualquer plano económico, desde que grande, tem um impacto positivo na procura agregada. (Esta é a hipótese de 'cavar e tapar buracos' do Keynes).

De NG a 30.11.2012 às 12:28

"Todos os países que tiveram, em algum ponto da sua história, dívida pública, acabaram numa espécie de Zimbabué"

Ou de Japão, com deflação e tudo

http://www.nationmaster.com/graph/eco_pub_deb-economy-public-debt

Na economia, como já vimos várias vezes na outra casa, o enredo fecha como o autor quiser.

De PR a 30.11.2012 às 12:30

Era ironia, Nuno...

De NS a 30.11.2012 às 18:56

Mas nós não estamos nas mãos dos nossos credores? Portugal não está nas mãos e sujeito à vontade dos seus credores?

De PR a 02.12.2012 às 15:06

Sim, estamos. Mas isso tem a ver com o nosso défice externo, não com a dívida pública. Os bancos com dívida no exterior estão tão ou mais nas mãos do BCE do que o Estado está nas mãos dos mercados. O ponto comum aqui não é a natureza 'pública' de quem emitiu a dívida, mas a nacionalidade estrangeira de quem a comprou.

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